Sextas são sextas, isso já basta. E, por isso, a vista de um ônibus no azul de seu resplendor se arrastando pela esquina em direção á alguém que já não sabe se é alguém é simplesmente maravilhosa. Dessa vez percebi que ele estava vazio antes mesmo de implorar aos céus a possibilidade de um lugar, mesmo que bem apertadinho ao lado de uma senhora sorridente com um neto catarrento no colo.
Mas enfim, a sorte de não ter que suportar um veículo instável lotado somado a minha mente já repleta de segundas e terças e quartas e quintas exaustivas me fez sorrir, e responder ao sonoro boa noite do trocador com um sorriso sincero e carregado com a felicidade que restara da semana.
Nunca fui de dormir no ônibus, mas de uns tempos pra cá a dinâmica de fechar os olhos durante quase um minuto, tombar a cabeça, bate-la contra o vidro e acordar com o cruel medo de ter cochilado com a boca aberta outra vez é uma rotina. Afinal, ando completando minhas noites de sono durante os caminhos que percorro, graças a motivos que merecem uma próxima crônica para serem devidamente explicados.
Contudo, quinze minutos depois de entrar no veículo eu já havia iniciado a dinâmica do quase dormindo outra vez, que acompanhada de uma mochila também lá pelo quase caindo e um corpo detonado literalmente caindo formava uma cena tanto cômica quanto trágica. Mas aí, sem querer, entre um momento consciente e outro (porque os minutos de sono podem ser arrebatadores) uma voz rouca de mulher me despertou com um sonoro " ah meu filho, mas eu acordo três e meia da manhã " que vinha de uma senhora baixinha e visivelmente feliz que estava conversando com o trocador que também parecia estar nesse estado,conclusão tirada por meio da tonalidade do boa noite citado parágrafos acima.
Voltando ao relato, a mulher que aparentava seus cinquenta e alguns e falava como quem já havia conquistados esses e muitos outros anos de uma vida difícil, porém gratificante, falava sem parar e do seu amontoado de palavras descobri que ela vendia jornais pela manhã perto do mercado e á tarde trabalhava numa cooperativa de catadores de material reciclável e, como se não bastasse, ainda dava conta de cuidar dos netos e fazer faculdade á distancia.
Assim, depois de ouvir tudo isso me impressionei, senti um pouco de vergonha pelo exagero do meu cansaço e me perguntei como alguém poderia se sentir a vontade para compartilhar sua rotina em um coletivo. Mas, graças a Deus, depois desse breve momento de ignorância e hipocrisia voltei a pseudo dormir, afinal só dormia tranquila porque existiam pessoas como aquela senhora, que acordavam antes do Sol para fazer do mundo um lugar mais alegre, mais honesto, passível de se viver e sem data de validade prevista pra 2012, já que conversas descontraidamente felizes no ônibus ás seis da tarde de uma sexta podem ser um sinal de que a humanidade ainda não conseguiu sucumbir por completo.